ABERTURA DA EXPOSIÇÃO RAMAIS DO DOURO DESACTIVADOS

DO FOTÓGRAFO CARLOS CARDOSO
1 DE JULHO | 18H00 | ESPAÇO MIGUEL TORGA
Patente até 31 de julho de 2017

Este é um mundo desprezado de pioneiros e de uma comunidade igualitária
destruída.
Um dos milagres da fotografia, como esta de Carlos Cardoso é restituir-nos o
significado exterior e interior de um reconhecimento flutuante, presente e
esquecido. Muito mais do que as auto estradas rodoviárias, usufruídas por muitos
mas não por todos, o caminho de ferro representou o progresso democraticamente
social da civilização industrial. Um progresso que uma panorâmica deixa adivinhar
com a linha rasgando a montanha e tornando-a acessível na temeridade da técnica.
As mudanças técnicas produzem sempre abandono, desperdício de bens e de gentes.
Carlos Cardoso trata com minúcia ruínas de bens de alta tecnologia, estações
abandonadas com belos painéis de arte popular e identitária, a adoção da sanidade
nos interiores cobertos de azulejos brancos, distinguindo o modo português de
definir estações mais agradáveis que solenes, espaços públicos eficazes que hoje a
vegetação engole e desfaz. São imagens muito belas e raramente um trabalho de
autor manifesta tanto a veracidade da documentalidade. E esse é outro dos dons da
fotografia, mostrar-nos como belo o que dói.
Ou sublinhar a presença do que está ausente: os funcionários que burocraticamente
se escondiam por detrás dos guichets e tratavam, ao fim do dia, dos pequenos
jardins da estação; os passageiros que com eles constituíam uma comunidade quase
familiar, o intercâmbio de notícias, de objetivos, de negócios e desconsolos.
As imagens evocam movimentos pretéritos e históricas pessoais de cada um, a
sincronia nas chegadas e partidas uma disciplina que incluía os tempos de espera
dos retardatários, a entreajuda com as bagagens, as refeições partilhadas, - o
intangível que a fotografia transporta. Memórias por vezes bruscas no afundar dos
carris sob as tramas de novíssimas pontes, a estrada de alcatrão atravessada pelos
carris que seguem para nenhures. Há silos imponentes que anulam bonitas estações
outras alcandoradas sob o abismo de recentes aluimentos técnicos.
Entre todas as imagens, a bela imagem do estendal de roupa estendido sobre os
carris de ida e retorno, sintetiza o significado da derrota e o significante emotivo
desta mostra.
Maria do Carmo Serén
Historiadora / Investigadora e teórica da imagem fotográfica / Ex-directora e coordenadora de comunicação do
Centro Português Fotografia- CPF / Investigadora do CITCEM